Em Cru


Os novos Chefs
Junho 11, 2009, 12:28 am
Filed under: Pessoal | Etiquetas: , ,

A actual visibilidade dos grandes chefs internacionais está a atraír para as escolas profissionais um estrato interessante da população. Aquilo que há dez anos era uma profissão para quem não queria estudar, vê agora, com a nova geração, cada vez mais licenciados pousar as canetas e agarrar as facas. Se, por um lado, isto contribui para dignificar a profissão e granjear mais credibilidade para a classe, por outro, rouba oportunidades de emprego a muitos jovens que realmente querem trabalhar numa cozinha. É que trabalhar numa cozinha e ser chef de renome são duas realidades muito distintas.

Nos dias que correm o mediatismo dos chefs e a própria aura de glamour que os media atribuem ao seu trabalho distorceu a realidade desta profissão. Aquilo que milhares de pessoas vêem é o chef consumado, criador de pratos, artista plático que usa os alimentos como pinceis e o prato como tela. Jovial, sabedor, amante da boa comida, tudo pretéritos que, sendo essenciais para uma boa persona televisiva, não são a norma dentro da cozinha.

De fora desta construção ficam as horas longas, o trabalho repetitivo, a dificuldade em estabelecer relações sociais fora do meio e de estar presente num ambiente familiar, o calor insuportavel, os acessos de mau génio, os cortes, as queimaduras e muito mais. O resultado é uma população estudantil que, correndo atrás de um sonho, fá-lo baseada em informações que, não sendo falsas, são cosméticas. Não é incomum encontrar exemplos disso mesmo nas enttrevistas de colegas meus. Pessoas que têm como objectivo único abrir casa própria, ir para o estrangeiro, ficar ricos, mas sem a determinação ou a capacidade de sacrifício necessárias para sequer trabalhar na linha de uma cozinha comum, quanto mais num três estrelas.

Não deixa de ser caricato que, no decorrer desta glorificação do chef, da sua exaltação, se tenha, como efeito secundário, criado uma imagem tão falsa do que esse cargo implica. É simples, e mesmo natural, querer atingir o sucesso de um alegre e sempre bem disposto Jamie Oliver, mas, para lá chegar, é preciso lavar muitas panelas, queimar os dedos e descascar batatas durante oito horas, para se ser massacrado por um chef mal disposto durante o serviço. Interessados?

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